Bracara Gourmet

Guia da baga

Silverberry

Elaeagnus umbellata Thunb.

Uma baga vermelha, pintalgada de prata, que amadurece no outono. É rara em Portugal e rica em licopeno, e cresce em solos pobres sem precisar de adubo azotado. Este guia reúne o que se sabe sobre a planta, o fruto e o cultivo, e a experiência de 14 anos da Bracara Gourmet em Braga.

Atualizado em outubro de 2026 · 11 fontes científicas e técnicas

Taça com bagas de silverberry colhidas no pomar Bracara Gourmet

Em resumo

Nome científico
Elaeagnus umbellata Thunb., família Elaeagnaceae
Nomes comuns
silverberry, autumn olive, autumnberry; em Portugal, oliveira-de-outono, acerola-japonesa, alegria-dos-pássaros, groselha-dos-Açores[9]
Origem
Ásia oriental, dos Himalaias ao Japão, passando pela China e pela Coreia[9]
Porte
arbusto caducifólio de vários troncos; pode chegar a 5 m de altura e de largura em seis anos[3]
Floração
maio–junho; flores pequenas, branco-creme, perfumadas, polinizadas por abelhas[3][9]
Colheita
setembro–outubro (até novembro, conforme o clima)
Produção
0,5 a 15 kg por planta e por ano, em ensaios nos EUA[2]
Destaque
15 a 54 mg de licopeno por 100 g de fruto fresco (o tomate fresco tem ≈ 3 mg)[1]
Na agricultura
fixa azoto do ar, tolera solos pobres e ácidos, resiste à seca e ao frio[3]

A planta

A silverberry é um arbusto denso, de crescimento rápido e tão largo como alto. O nome vem das pequenas escamas prateadas que cobrem as folhas (sobretudo a página inferior), os ramos jovens e o próprio fruto. De longe, o arbusto parece verde-acinzentado.

  • Folhas: simples e alternas, com 3–10 cm de comprimento, verdes por cima e prateadas por baixo[3].
  • Flores: 1–2 cm, sem pétalas, hermafroditas e muito perfumadas. Atraem abelhas e outros polinizadores[3].
  • Fruto: drupa carnuda e vermelha com uma única semente, coberta de pintas prateadas.
  • Raízes: têm nódulos com bactérias do género Frankia que fixam o azoto do ar, por isso a planta cresce bem em solos pobres[3][10].
Ramo de silverberry com fruto maduro e folha de página inferior prateada
Fruto maduro e folha prateada, no pomar em Braga (2024).

O ano da silverberry

  1. dez.–fev.Repouso. Poda de formação e de limpeza.
  2. mar.–abr.Rebentação das folhas prateadas.
  3. mai.–jun.Floração perfumada e polinização por insetos.
  4. jul.–ago.Crescimento do fruto, ainda verde-prateado.
  5. set.–out.Maturação e colheita: o fruto fica vermelho-escuro.
  6. nov.Queda da folha. Últimos frutos nas variedades tardias.

Origem e história

A espécie é nativa da Ásia oriental, dos Himalaias ao Japão[9]. Nessas regiões o fruto é colhido e comido há muito tempo[1].

  • c. 1830 Introduzida no Reino Unido e nos Estados Unidos como planta ornamental[3].
  • Séc. XX Nos EUA foi muito plantada para recuperar terrenos de minas, segurar taludes e alimentar a fauna. Aí tornou-se invasora em várias regiões[10].
  • 2001 O Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) descobre que o fruto é das fontes mais ricas de licopeno conhecidas[1].
  • 2005 Ensaios nos EUA concluem que pode ser uma cultura comercial viável, com colheita mecânica e poucos fatores de produção[2].
  • 2012 A Bracara Gourmet começa a cultivar silverberry em Braga.
  • 2014–2016 Investigação portuguesa analisa bagas e folhas colhidas no Funchal e refere o interesse em multiplicar a planta para produzir fruto[5].

Em Portugal continental existe sobretudo como ornamental e, pontualmente, subespontânea[9]. Não há produção comercial conhecida: é uma cultura nova no país.

O fruto

Bagas de silverberry em pormenor, com as pintas prateadas visíveis
As pintas prateadas são escamas que desaparecem ao toque.
  • Aspeto: pequena baga redonda, vermelho-vivo a vermelho-escuro, com pintas prateadas.
  • Semente: uma por fruto, cerca de 10 % do peso[2].
  • Sabor: doce-ácido e sumarento[7]. Antes de bem maduro é ligeiramente adstringente.
  • Açúcar: 16,5 °Brix nas bagas colhidas no Funchal, o valor mais alto entre as bagas estudadas nesse trabalho[5].
  • Cor: o vermelho vem do licopeno, o mesmo pigmento do tomate. Há uma variedade amarela ('Charlie's Golden') quase sem licopeno[1].
  • Conservação: o fruto fresco é perecível. Congela-se bem e é assim que se guarda para o resto do ano.

Composição

O que distingue a silverberry é a concentração de carotenoides (os pigmentos vermelhos e laranja) e de compostos fenólicos. Os valores variam com a variedade, o clima e a maturação.

Licopeno, em mg por 100 g[1]

  • Tomate fresco3
  • Concentrado de tomate29
  • Silverberry (fruto fresco)15–54
A barra da silverberry mostra o intervalo medido em plantas e variedades de fruto vermelho.
Principais componentes do fruto
ComponenteValor de referênciaNota
Licopeno15–54 mg/100 g72–82 % dos carotenoides do fruto vermelho [1]
β-criptoxantina≈ 10× a da laranjaoutro carotenoide abundante [1]
Outros carotenoidesβ-caroteno, luteína, fitoeno, fitoflueno[1]
Polifenóis totais190–434 mg GAE/100 gfruto fresco [4]; até ≈ 3 400 mg GAE/kg noutras seleções [8]
Vitamina Eelevadasuperior à do morango, mirtilo e amora [4]
Vitamina C≈ 12–17 mg/100 g[8]
Flavonoidesderivados de canferol, quercetina e isoramnetina28 compostos identificados nas bagas, 42 nas folhas [5]
Catequinaprincipal fenólico em alguns estudos154 mg/100 g no fruto liofilizado [7]

Liofilizar conserva mais: num estudo de 2024, o fruto liofilizado manteve cerca de 4 vezes mais polifenóis do que o seco por atomização[7]. Isto conta para quem quiser fazer pós, snacks ou chás.

O que a ciência estuda

Por ser rica em licopeno e polifenóis, a silverberry tem sido estudada em laboratório. Os resultados mais citados incluem:

  • Atividade antioxidante elevada dos extratos do fruto e da folha[6][5].
  • Inibição de enzimas digestivas ligadas à absorção de açúcares, em ensaios in vitro[5].
  • Efeitos no metabolismo dos lípidos num organismo-modelo (o verme C. elegans)[7].

⚠️ São estudos de laboratório, em células ou em animais. Não demonstram efeitos na saúde humana e não autorizam alegações de saúde em produtos (Regulamento (CE) n.º 1924/2006). O valor seguro e verificável da silverberry é a sua composição.

Cultivo

É uma planta rústica e de baixa manutenção. Os ensaios norte-americanos destacam a produtividade com poucos fatores de produção e a possibilidade de colheita mecânica, sobretudo em solos pobres[2].

Clima

Muito resistente ao frio (aguenta até –40 °C) e, depois de instalada, à seca[3]. Adapta-se bem ao clima do Minho.

Solo

Tolera solos pobres, ácidos e degradados. Prefere pH 4,8–6,5 e evita solos muito calcários ou pouco profundos[3].

Luz

Sol pleno ou meia-sombra ligeira. As plantas jovens não toleram sombra[3].

Adubação

Como fixa azoto, dispensa adubos azotados. Parte desse azoto fica disponível para as plantas vizinhas[3].

Sanidade

Notavelmente resistente à armilária (podridão das raízes)[3]. Não exige tratamentos regulares.

Porte

Cresce depressa, até 5 m em seis anos[3]. A poda de inverno mantém-na à altura da colheita.

Propagação

  • Por semente: precisa de frio para germinar. Com 16 semanas a 5 °C, obtém-se cerca de 90 % de germinação em duas semanas[3]. Plantas de semente dão fruto ao fim de 5–6 anos[3] e o fruto varia de planta para planta.
  • Por estaca: estacas semi-lenhosas, com talão, em julho–agosto[3]. Mantêm as características da planta-mãe, por isso são o método indicado para multiplicar as melhores plantas.

Variedades

Nos EUA há variedades selecionadas para fruto: 'Jewel', 'Delightful', 'Brilliant Rose' e 'Sweet 'n' Tart' (vermelhas, ricas em licopeno) e 'Charlie's Golden' (amarela)[1]; 'Jazbo' foi selecionada pelo fruto para doces[3]. O teor de licopeno varia muito entre plantas, o que abre espaço a seleção de plantas adaptadas a Portugal[1][2].

Produção e colheita

  • Produtividade: 0,5 a 15 kg por planta e por ano nos ensaios de Maryland, conforme a variedade e a idade[2].
  • Polinização: feita por insetos. Ter várias plantas e variedades no pomar ajuda a frutificação.
  • Colheita: à mão, ou sacudindo os ramos sobre panos. Em ensaios usou-se uma máquina de colher mirtilos em plantas podadas para o efeito[2].
  • Pós-colheita: refrigerar logo e consumir em poucos dias, ou congelar no próprio dia.

Usos e transformação

O fruto doce-ácido presta-se a muitas preparações[1]:

  • Fresco, na época
  • Doces e geleias, o uso mais tradicional
  • Sumos e néctares
  • Purés congelados para taças e batidos
  • Molhos e condimentos
  • Desidratado ou liofilizado, para snacks, pós e granolas
  • Infusões de fruto desidratado e de folha
  • Pastelaria: bolos, queques, recheios

Como o licopeno não se dissolve em água, a cor mantém-se bem nos produtos cozinhados.

Frasco de geleia de silverberry Bracara Gourmet
Geleia de silverberry Bracara Gourmet, com o rótulo atual.

Gestão responsável

Qualquer conversa séria sobre a silverberry tem de incluir este tema. A planta produz muitas sementes, que as aves espalham, e nos EUA tornou-se invasora em várias regiões, onde foi plantada em grande escala junto a habitats naturais[10][3].

O que diz a experiência na Europa

No Reino Unido é cultivada em parques e jardins há quase 200 anos sem sinais de comportamento invasor. Em ensaios florestais monitorizados não houve regeneração espontânea[3].

O que diz a lei portuguesa

A Elaeagnus umbellata não consta da Lista Nacional de Espécies Invasoras (Anexo II do Decreto-Lei n.º 92/2019)[11]. A lista é revista periodicamente e deve ser confirmada junto do ICNF.

Boas práticas que seguimos e recomendamos

  1. Cultivar em pomar gerido, nunca em sebes soltas ou em áreas naturais.
  2. Colher todo o fruto. É o que tem valor e é também o que as aves dispersariam.
  3. Afastar o pomar de matas, linhas de água e áreas protegidas.
  4. Vigiar e arrancar plântulas que apareçam fora do pomar.
  5. Multiplicar por estaca as plantas escolhidas, em vez de espalhar semente.

Bem gerida, a planta traz benefícios: fixa azoto, protege o solo da erosão, serve de abrigo do vento e dá flor às abelhas[3].

A experiência Bracara Gourmet

Bagas de silverberry e discos de madeira Bracara Gourmet numa apresentação
Apresentação da silverberry Bracara Gourmet (2022).
  • 2012 Primeiras plantas em Braga.
  • 2019 Site, loja online e primeiros produtos: doce de silverberry e de laranja, physalis, amêndoa e avelã.
  • 2020 Programa de ignição de ideias de negócio (Ignilab) e Laboratório de Empresas: projeto «Silverberry, um superalimento», com 115 plantas e plano de parceria com a Universidade do Minho.
  • 2026 140 plantas em produção. Relançamento com foco no fornecimento de fruto a parceiros.

Em 14 anos aprendemos como a planta se comporta no Minho: quando floresce, quando amadurece, como se colhe e como se transforma. Esse conhecimento prático é raro em Portugal e é o que podemos partilhar.

Uma oportunidade para escolas agrícolas e municípios

A silverberry junta inovação agrícola, alimentação saudável e gestão ambiental, o que faz dela um bom tema para o ensino profissional agrícola e para o desenvolvimento local.

Pomar demonstrativo

Uma pequena parcela na escola, com várias plantas, para aulas práticas de instalação, poda, colheita e propagação.

Ensaios com alunos

Comparar plantas, medir produção e maturação, testar propagação por estaca. Dados novos sobre uma cultura sem histórico em Portugal.

Transformação

Desenvolver doces, sumos, desidratados ou chás na unidade agroalimentar da escola, com análises e rotulagem.

Ciência aplicada

Medir licopeno e polifenóis do fruto português, em parceria com uma universidade.

Diversificação para agricultores

Formação sobre uma cultura rústica, adequada a solos pobres, como fonte de rendimento complementar.

Produto do território

Um produto local diferenciador para mercados, feiras e restauração do concelho.

O que a Bracara Gourmet pode trazer: 14 anos de experiência de cultivo, fruto para ensaios, material de propagação das nossas plantas e acompanhamento técnico.

Perguntas frequentes

A silverberry é comestível?

Sim. O fruto maduro come-se fresco ou transformado e é consumido há muito tempo na Ásia[1].

A que sabe?

Doce-ácido e sumarento, com uma ligeira adstringência que desaparece quando o fruto está bem maduro.

É o mesmo que a goji ou o espinheiro-amarelo?

Não. A goji é de outra família (Lycium). O espinheiro-amarelo (Hippophae) é da mesma família da silverberry, mas é outra espécie, com fruto laranja.

É invasora em Portugal?

Não consta da Lista Nacional de Espécies Invasoras. É invasora nos EUA, e por isso recomendamos as boas práticas descritas em Gestão responsável.

Quanto tempo demora a produzir?

Plantas de semente frutificam ao fim de 5–6 anos[3]. Plantas de estaca de exemplares adultos tendem a entrar em produção mais cedo.

Onde se pode ver e provar?

No pomar da Bracara Gourmet, em Braga, durante a época (setembro–outubro). Escreva-nos.

Fontes

  1. Fordham, I.M., Clevidence, B.A., Wiley, E.R. & Zimmerman, R.H. (2001). Fruit of autumn olive: a rich source of lycopene. HortScience 36(6): 1136–1137. ligação
  2. Black, B.L., Fordham, I.M. & Perkins-Veazie, P. (2005). Autumnberry (Elaeagnus umbellata): a potential cash crop. Journal of the American Pomological Society. ligação
  3. Clark, J. & Hemery, G. (2006). The use of the autumn olive in British forestry. Quarterly Journal of Forestry 100(4): 285–288.
  4. Pei, R., Yu, M., Bruno, R. & Bolling, B.W. (2015). Phenolic and tocopherol content of autumn olive (Elaeagnus umbellata) berries. Journal of Functional Foods 16: 305–314.
  5. Pinto, J.C.N. (2016). Estudo da composição e das propriedades bioactivas de plantas produtoras de bagas. Dissertação de Mestrado em Bioquímica Aplicada (amostras colhidas no Funchal, 2014).
  6. Gamba, G. et al. (2020). Phytochemical characterization and bioactivity evaluation of autumn olive (Elaeagnus umbellata Thunb.) pseudodrupes. Applied Sciences 10(12): 4354. ligação
  7. Kim, Y., Nam, S., Lim, J. & Jang, M. (2024). Autumn olive (Elaeagnus umbellata Thunb.) berries improve lipid metabolism and delay aging in middle-aged Caenorhabditis elegans. International Journal of Molecular Sciences 25(6): 3418. ligação
  8. Petrescu, A. & Paraschiv, M. (2022). Journal of Horticulture, Forestry and Biotechnology (2022, n.º IV). ligação
  9. Jardim Botânico da UTAD. Flora Digital de Portugal: Elaeagnus umbellata Thunb. ligação
  10. Dornbos, D.L., Smit, K.B. & Tubergen, P.J. (2015). Influence of autumn olive (Elaeagnus umbellata) on plant community composition and soil fertility. Calvin College.
  11. Decreto-Lei n.º 92/2019, de 10 de julho (regime das espécies exóticas da flora e fauna; Anexo II: Lista Nacional de Espécies Invasoras). ligação